domingo, 28 de agosto de 2016

28/8 - A fábula do antiquado pato amarelo

CARLOS - Professor de Geografia


Posted: 27 Aug 2016 03:54 PM PDT
O setor que capitaneia a campanha do pato amarelo artificial é beneficiário de uma infinidade de incentivos e isenções.


Leomar Daroncho

Uma criativa campanha de marketing da Frente Nacional contra o Aumento de Impostos pôs um simpático patinho amarelo a surfar na onda das recentes manifestações de ruas do Brasil. O movimento, liderado pelo setor industrial de São Paulo, propôs-se a colher assinaturas contra o aumento da carga tributária no país com o slogan "Não Vou Pagar o Pato”. Assim, com amplo apelo publicitário, caiu nas graças de muitos que se deslocavam entre os manifestantes defensores do impeachment. As crianças adoraram!

O gosto pelas fábulas é tão antigo quanto seu uso para transmitir ideias sob a forma de narrativas que terminam com mensagens morais.

Atribui-se o desenvolvimento do gênero, a partir de criações orientais, ao grego Esopo, que, no século VI a.C., teria o dom da palavra. Contava histórias curtas. Normalmente atribuía pensamentos, ações e características humanas a animais. Suas narrativas foram reproduzidas em infindáveis citações de célebres pensadores como Heródoto e Platão. O formato inspirou La Fontaine (A Lebre e a Tartaruga, O Leão e o Rato e A Raposa e a Uva).

Algumas das qualidades ou condições atribuídas aos animais foram reelaboradas e passaram a corresponder a ideias sobre determinadas situações. Nas narrativas com fundo didático, cada animal simboliza algum aspecto ou qualidade do homem. O leão representaria a força. A tartaruga, a lentidão. 


A formiga, o trabalho. A lebre, a agilidade.

São representações que fazem parte das variações da língua. Espelham aspectos e nuances que retratam realidades culturais de determinadas regiões e épocas. Algumas podem se perpetuar por gerações, por vezes, desprendendo-se da restrita concepção inicial. 
A frase "pagar o pato" pode ser considerada uma expressão idiomática. Antiga, é empregada no sentido figurado. Remete à ideia de um comportamento de tolo. De alguém que responde ou paga pelo que não deve. 

Passada a fase aguda do movimento que culminou, no plano institucional, com o afastamento, temporário, da chefe do Poder Executivo, os representantes do setor empresarial apressaram-se em apresentar reivindicações ao Governo provisório. Cobram o prêmio pelas deambulações do pato amarelo.

No que diz respeito às relações de trabalho, o antagonismo em relação aos supostos direitos, “exagerados”, dos trabalhadores retoma, com um discurso modernizante, a pauta dos setores empresariais mais atrasados. Pauta esta que esteve presente nas discussões da CLT, na década de 1940. A disputa está retratada desde a Exposição de Motivos da CLT.

Na mesma época (Filadélfia, 1944), a Organização Internacional do Trabalho – OIT já debatia e afirmava a preocupação das nações com o desenvolvimento de um regime de trabalho “realmente humano”. 

A partir do reconhecimento de que existem condições de trabalho que implicam miséria e privações, e que o descontentamento que daí decorre põe em perigo a paz e a harmonia, a OIT seguiu firmando compromissos que ampliam a proteção trabalhista. Sempre pautada pela consideração de que é urgente melhorar as condições de vida dos trabalhadores.

O setor que capitaneia a campanha do pato amarelo artificial é beneficiário de uma infinidade de incentivos e isenções. Conta com generosos financiamentos de um banco público – BNDES - que apoia empreendedores e seus negócios. A justificação para as benesses oficiais está no propósito de incrementar o “potencial de geração de empregos, renda e de inclusão social para o País”. Mesmo assim, não há constrangimento na aberta defesa de uma pauta precarizante.


Moral da história: se há uma conta, que os trabalhadores paguem. Procurem outro pato!

E o pato de borracha? Ao virar celebridade, envolveu-se em polêmicas. Admirado por uns. Criticado por outros. Foi esfaqueado. Acusado de ser plágio da obra de um artista holandês. Para completar, um de seus patrocinadores foi envolvido numa denúncia de sonegação bilionária de impostos.

Importante lembrar que, em sentido figurado, a palavra fábula também significa mentira ou farsa. 

Nesse universo, a astúcia é representada pela raposa.

Leomar Daroncho é Procurador do Trabalho

Texto original: CARTA MAIOR

28/8 - Portal OBVIOUS em Destaque DE HOJE

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28/8 - Como funciona o consórcio midiático-judicial

FONTE:http://www.ocafezinho.com/2016/08/18/como-funciona-o-consorcio-midiatico-judicial-que-esta-enterrando-a-democracia-brasileira/


Como funciona o consórcio midiático-judicial que está enterrando a democracia brasileira

globo-ditadura
Por Pedro Breier, correspondente policial do Cafezinho
O editorial de hoje do Globo (A simbologia de dois presidentes investigados), que trata da abertura de inquérito contra Dilma, Lula e outras pessoas por tentativa de obstrução da Justiça, é o exemplo perfeito de como funciona a articulação entre mídia, Judiciário e MPF para criar o clima propício ao golpe de Estado que será chancelado pelo Senado nos próximos dias.
Façamos uma pequena recapitulação dos fatos para demonstrar como se dá essa articulação, e como ela é essencial para que a direita alcance seus objetivos antidemocráticos.
Todos os vazamentos seletivos e ilegais da Lava Jato para a mídia detonar os inimigos políticos com manchetes garrafais durante a campanha de 2014 não foram suficientes para evitar a derrota de Aécio.
No momento em que foi confirmada a derrota do candidato orgânico da direita já começaram os preparativos para o golpe - nos comentários sobre o resultado, no dia do segundo turno, o programa da Veja em vídeo já falava em impeachment -.
A estratégia continuou a mesma, mas com objetivo diferente: os vazamentos seletivos e as manchetes enviesadas visavam não mais mudar os rumos da eleição, mas convocar o exército de manipulados às ruas para que o discurso de que "a voz do povo deve ser ouvida" pudesse ser usado pelos golpistas do parlamento.
Quando Dilma nomeou Lula para a chefia da Casa Civil os conspiradores sentiram que o ex-presidente poderia mudar o jogo em favor do governo e não tardaram a agir.
Moro divulgou, no mesmo dia da nomeação, áudios oriundos de grampo no celular de Lula.
A Globo pegou um desses áudios, no qual Lula conversava com Dilma sobre a assinatura do termo de posse, e deu a interpretação forçadíssima de que os dois estariam com pressa para que Lula pudesse fugir de uma eventual prisão ordenada por Moro. Com direito a caras e bocas dos apresentadores do Jornal Nacional interpretando os diálogos.
A convulsão social almejada e alcançada com a divulgação dos áudios deu o amparo necessário para que Gilmar Mendes concedesse liminar suspendendo a nomeação de Lula.
De lá para cá o golpe foi consolidado e só um milagre impede que ele seja consumado.
Mas a história do áudio continua rendendo frutos ao consórcio midiático-judicial.
Rodrigo Janot manteve o pedido de abertura de inquérito para investigar a suposta tentativa de obstrução das investigações da Lava Jato, mesmo após a anulação dos áudios por Teori Zavascki.
Aqui cabe um parêntese sobre a questão da obstrução em si. Jânio de Freitas foi cirúrgico na Folha, hoje:
Dilma e Lula não fizeram e não tentaram fazer obstrução à Justiça, nem sequer à Lava Jato. Obstruir, aplicada ao caso, seria obstar impedimentos, totais ou parciais, efêmeros ou definitivos, à efetivação de procedimentos judiciais. Mas ministros não desfrutam de imunidade. Por lei, bem entendido, que não faltam outros caminhos –estes, fora do alcance de Lula, Dilma e qualquer petista.
Se nomeado ministro, inquéritos e possíveis julgamentos de Lula não seriam evitados nem sustados em seu decorrer. Apenas subiriam de instância no Judiciário, passando a tramitar no Supremo Tribunal Federal. Não mais na mesa, nas gavetas e nas celas do juiz Sergio Moro em sua primeira instância.
Mesmo sendo absurda sob qualquer aspecto a hipótese de que Lula e Dilma atuaram para obstruir a Lava Jato, Teori Zavascki acatou o pedido de Janot na última terça-feira, convenientemente garantindo as manchetes do dia contra o PT, no momento em que se aproxima a hora final do julgamento de Dilma pelo Senado.
E então chegamos ao editorial de hoje do Globo.
Com a abertura do inquérito inicia-se a fase da coleta de provas, para que o julgador posteriormente pese-as e tome sua decisão.
Mas quando a coisa envolve Lula, Dilma ou o PT o editorialista dos Marinho sabe muito bem o que fazer: ignorar essa história de provas e declarar a culpa dos malditos petralhas inapelavelmente.
O subtítulo do editorial é essa pérola: "Dilma e Lula passam a ser suspeitos de tramoias contra a Justiça, em inquérito no STF, e patrocinam algo de que não se tem notícia na República".
Outro trecho: "Uma trama de alto escalão que perpassa os Três Poderes. Exemplo bem lapidado de como, nestes últimos anos, além de se assaltar empresas públicas como a Petrobras, manobrava-se sem limites para intervir no Judiciário, a fim de soltar empreiteiros companheiros detidos em Curitiba."
O julgamento no tribunal midiático já está concluído. Sem direito à apelação.
E o público, bombardeado por anos com a narrativa de que o PT "institucionalizou a corrupção" e de que Lula é um bandido, aceita sem questionamentos.
A sequência e o entrosamento são claros: Moro começa a jogada vazando os áudios para a Globo; a Globo recebe o passe, interpreta à sua maneira os áudios, encena-os em horário nobre, cria a convulsão social desejada e passa a bola para Gilmar Mendes; o tucano do STF dá sequência à tabelinha impedindo a posse de Lula; Janot pega a bola e insiste na abertura de inquérito; Teori não se opõe e a Globo finaliza a jogada decretando a culpa dos petistas em editorial.
Muitos dos que compram essa narrativa na verdade estão também alinhados ideologicamente à Globo e às castas burocráticas do Judiciário e do MPF.
Mas muitos realmente acreditam na narrativa midiática. E a participação destes, crentes de que estavam combatendo a corrupção ao ir para a rua protestar contra o governo, foi essencial para o sucesso do golpe.
Um dia eles hão de saber que os paladinos da moral da mídia, da Justiça e do MPF na verdade atuaram em conjunto para corromper o sistema de justiça e atingir seu objetivo político: colocar de joelhos uma das maiores democracias do mundo ocidental.

28/8 - Padura escreve contra o golpe no Brasil!

FONTE:http://www.ocafezinho.com/2016/08/28/exclusivo-em-artigo-inedito-leonardo-padura-escreve-contra-o-golpe-no-brasil/


Exclusivo! Em artigo inédito, Leonardo Padura escreve contra o golpe no Brasil!

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(Foto: GERARDO LAZZARI/RBA)
Padura, sobre o golpe no Brasil:
"(...) o que tem ocorrido e está ocorrendo no Brasil é doloroso, revoltante, assombroso e, ao mesmo tempo, instrutivo. Mas acredito que deve ser instrutivo sobretudo para os brasileiros. Porque se a gestão dos anos de governo do PT terminam por levar a resultados políticos e sociais em que se constata a existência de um país dividido, com um percentual notável de seus cidadãos esgrimindo posturas críticas contra o governo que mais fez e que melhor trabalhou para as grandes massas do país, a principal lição que devemos reaprender não é que os poderosos exerçam o seu poder e que a sua vingança política seja uma arma sempre à espreita. Isso sabemos todos, e todos assumimos como realidade. O que mais nos ensina, apesar de sua presença constante, é comprovar que a ingratidão humana pode ser infinita."
Esse trecho faz parte de um artigo inédito de Leonardo Padura, destinado a uma coletânea organizada por cinco mulheres (Carol Proner, Gisele Cittadino, Juliana Neuenschwander, Katarina Peixoto, Marilia Carvalho Guimarães), intitulada Resistência Internacional ao Golpe de 2016, e antecipado aqui com exclusividade pelo Cafezinho.
RESISTENCIA INTERNACIONAL AO GOLPE DE 2016
Padura tornou-se famoso no Brasil pelo sucesso aqui de seu romance "O homem que amava os cachorros", uma denúncia corajosa e pungente dos vícios autoritários do socialismo.
Sim, a Cuba de hoje tenta se modernizar estimulando a autocrítica: o livro de Padura ganhou o principal prêmio literário do país.
Padura, um crítico radical dos aspectos autoritários do socialismo, vive e trabalha em Cuba, país que ama e onde escreve com toda liberdade. Assim como a blogueira Yoani Sanchez, diga-se de passagem, cujos "prêmios literários" são dados pela extrema-direita americana.
"O homem que amava os cachorros" projetou Padura como um dos maiores romancistas do mundo, tornando-o candidato fortíssimo a um próximo prêmio Nobel de literatura.
Padura tem sido fã confesso dos avanços sociais obtidos pelos governos petistas, que combinam políticas públicas redistributivas, aumento da transparência dos gastos públicos, e aprofundamento do processo democrático.
Em suas visitas ao Brasil, Padura fez questão de visitar o Instituto Lula e posar ao lado do ex-presidente e da atual presidenta constitucional Dilma Rousseff.
Em entrevista ao Roda Vida, soube escapar com inteligência às tentativas dos entrevistadores (jornalistas reacionários da grande mídia) de fazê-lo criticar o regime político cubano: perguntado se havia muita pobreza em seu país, ele disse que havia visto mais pobres no caminho até o estúdio da TV Cultura do que em toda Cuba.
Eu publico abaixo uma tradução do artigo, feita por mim mesmo.
***
Uma nota de dor pelo Brasil
Por Leonardo Padura, especial para o livro (ainda inédito) "A resistência internacional ao golpe" 
Tradução: Miguel do Rosário.
Um turista europeu vem à Cuba e, após uma semana na ilha, volta a seu país e diz a um amigo: "estive em Havana e em Santiago de Cuba; bebi rum, mojitos, daiquiris até não poder mais; passei pela via Malecón num automóvel americano de 1948; tirei uma foto diante da imagem de Che na Praça da Revolução; dancei uma conga em Santiago e... fiz amor com uma mulata cubana!... Já sei tudo de Cuba".
Os cubanos temos uma grande experiência neste tipo de conhecimentos do país... e de outros juízos parecidos. Porque se o juízo do hipotético e típico turista europeu resulta superficial e inocente, o que mais nos incomoda, por suas consequências, é o de analistas que sentam cátedra por seu conhecimento da ilha desde seus pedestais estrangeiros e, mais ainda, se atrevem a ensinar aos cubanos que residem em Cuba como devemos viver, nos comportar, pensar. Inclusive, o que podemos dizer e como devemos escrever sobre nossa sociedade... E essas anatomias de uma realidade tão peculiar, e como é lógico em se tratando de Cuba, podem vir desde posições de esquerda ou desde posturas de direita... mas sempre oriundas de um sentimento comum de prepotência.
Talvez como reação alérgica a essas manifestações de intrusismo, que eu sofro como cubano, em geral não emito opiniões sobre as realidades dos países onde eu não vivo, trabalho, penso. Creio firmemente que para ter uma ideia de uma sociedade determinada e atrever-se a expressá-la publicamente é preciso ser parte dela, não como observador e sim como participante. Mais ainda, como sofrente.
É por essa razão que durante dias, semanas, contive minha indignação e minha dor e não ousei expressar, em qualquer das tribunas jornalísticas que me são oferecidas, minhas impressões sobre os recentes acontecimentos no Brasil. E quando digo impressões, eu o faço com toda consciência da minha capacidade e o alcance do meu conhecimento, que apenas me permite mover-me nesse plano subjetivo.
Mas não haver expressado essas impressões não aliviou minha dor nem acalmou minha indignação. Porque se algo me provoca todo esse processo político que se desdobra no Brasil nos últimos meses, culminando com a abertura de um juízo político da presidenta constitucional Dilma Rousseff, é exatamente dor e indignação: na alma ou na consciência, onde quer que esteja o centro das convicções, dos afetos, das afinidades e até das fobias de um ser pensante.
Desde meu balcão cubano, tenho acompanhado com assombro como se formou a cadeia de acontecimentos que chegaram ao ponto onde chegaram: remover do poder a um presidente eleito pela maioria de seus cidadãos. Como se se tratasse de um velho filme de faroeste, ou de uma novela brasileira, eu assisti ao desenvolvimento do drama com a esperança de que, ao final, se fizesse a justiça. Todavia, com dor e ainda mais assombro, comprovei que as tramas da realidade podem ser mais complicadas que a de qualquer ficção e que na política dos grandes poderes, visíveis ou invisíveis, sabem operar com maestria. E que poucas coisas são tão fáceis de se realizar como a manipulação da verdade e, com ela, das mentes.
Independente das minhas afinidades sociais e afetivas, que certamente pesam na conformação das minhas impressões, o que tem ocorrido e está ocorrendo no Brasil é doloroso, revoltante, assombroso e, ao mesmo tempo, instrutivo. Mas acredito que deve ser instrutivo sobretudo para os brasileiros. Porque se a gestão dos anos de governo do PT terminam por levar a resultados políticos e sociais em que se constata a existência de um país dividido, com um percentual notável de seus cidadãos esgrimindo posturas críticas contra o governo que mais fez e que melhor trabalhou para as grandes massas do país, a principal lição que devemos reaprender não é que os poderosos exerçam o seu poder e que a sua vingança política seja uma arma sempre à disposição. Isso sabemos todos, e todos assumimos como realidade. O que mais nos ensina, apesar de sua presença constante, é comprovar que a ingratidão humana pode ser infinita.
Enquanto o processo contra a presidenta constitucional Dilma Rousseff avança em seus labirintos, o que mais me interessa saber, como o espectador interessado que sou, é se realmente a mandatária cometeu os pecados que se lhe atribuem. Como muitas pessoas no mundo, espero que ela não os tenha cometido, pelo bem do Brasil e da verdade. Mas também espero que, pelo bem do Brasil e da verdade, cada um dos culpados por corrupção, manobras políticas ilegais, manipuladores da verdade, se é que existem - e creio que existem - sejam julgados com o mesmo rigor que se impôs a Dilma Rousseff, e tudo que ela representa e que, se é possível, paguem o preço pelo que fizeram. Para o bem do Brasil e da verdade, que são duas realidades acima das convicções políticas e, com certeza, das minhas simpatias e afinidades.
Se algo assim acontecer, eu sentirei como se alivia a dor que hoje sinto pelo Brasil. E terei alguma esperança de que, no campo da realidade concreta, a Justiça não seja apenas o nome de um Ministério, mas um escudo para a verdade e uma medicina eficaz para as dores de consciência.