Avida é um permanente jogo de decisões. Decisão sobre onde morar, com quem casar, em que restaurante comer, em qual supermercado fazer as compras, em que escola colocar os filhos.
Apesar do permanente estado de decisão, o indivíduo acredita que sua única decisão cívica é o voto. A cada dois anos vai às urnas, ora para escolher seus representantes municipais, ora para os federais e estaduais. E essa decisão – o voto – muitas vezes é feita por impulso, com poucos critérios. Ou pela memória.
A memória ajuda a tomada de decisões. Se aquele restaurante me apresentou um prato indigesto, não vou mais lá. Se as frutas naquele supermercado superam em qualidade qualquer outro do bairro, é o meu preferido.
Mas a mesma memória que ajuda, às vezes atrapalha. O ser humano costuma guardar no fundo da lembrança apenas as imagens mais fortes, positivas ou negativas. E muitas vezes apaga alguns detalhes outrora tão presentes. 
O poeta grego Píndaro (522 a.C. – 433 a.C.) revela em um de seus poemas, o Hino a Zeus, uma divertida história passada entre os Deuses. Zeus chama seus colegas para apresentar sua obra máxima, a Terra, a vida, o Kosmos. Enquanto todos admiravam a perfeição da criação, um dos Deuses, quase por chacota, brinca com o "chefe". Faltam criaturas que admirem essa obra, afinal o homem é um ser que esquece.
Começou a crise que perdura até hoje. 
Esse esquecimento permite que o ser humano cometa absurdos, quando pensa em eleições. Vota em pilantras em troca de promessa de empregos para a família, vota em quem diz que não sabe o que é der deputado "mas quando eu souber eu conto", vota em animais como forma de protesto.
Mas a pior fuga de memória é a que louva o período militar. Os militares, sem qualquer competência administrativa, arrasaram o Brasil por 21 anos. Os militares mataram, prenderam, torturaram sem qualquer limite. Bastava "cometer o crime" de pensar diferente, de enxergar um outro futuro para o Brasil. E tome tapa na orelha, fios elétricos nos testículos. Queria dar alguma opinião? Primeiro passe pelo pau-de-arara, por favor. O militarismo foi a maior barbárie, em todos os sentidos, que o Brasil República enfrentou. Elogiar qualquer ponto desse período é rasgar o certificado de cidadania.
Por isso é muito estranho que o Brasil de 2013 comece a ouvir de vários lados vozes que dizem "que saudade dos militares". O país pode estar em um caldeirão social, com maracutaias pelos lados de Brasília, má gestão em governos estaduais e municipais, propinas, corrupção, protestos e arruaças nas ruas. Mas nada justifica um só segundo de nostalgia do período mais sombrio do Brasil recente. Nada.
Ser liderado por alguém cujo único talento é empunhar uma arma é algo que não se deseja a ninguém.
Muito menos ao Brasil.

Gaúcho, jornalista, consultor de empresas de comunicação e edita o blog Mídia Mundo. Procura contar histórias curiosas que garimpa em andanças por aí.

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