domingo, 18 de junho de 2017

18/6 - Altamiro Borges DE HOJE

Altamiro Borges


Posted: 18 Jun 2017 09:59 AM PDT
Por Renato Rovai, em seu blog:

A entrevista de Joesley para a revista Época é de uma desfaçatez poucas vezes vista no jornalismo. Porque, em primeiro lugar, não é jornalismo.

É um acordo de empresas e empresários.

A JBS e a Globo construíram um pacto de que é preciso derrubar Temer para que ambas se salvem.

Este blogueiro já havia denunciado isso quando a delação de Joesley vazou pela coluna de Lauro Jardim. Uma fonte do blogue relatou que a informação chegou ao colunista por cima. E por isso, mesmo sem ter tido acesso ao áudio, Jardim topou registrar que Temer teria dado aval ao empresário-bandido de Goiás para que comprasse o silêncio de Cunha.

No papo que teve com o presidente-bandido há muita coisa absolutamente criminosa, mas não isso: “Dono da JBS grava Temer dando aval para compra de silêncio de Cunha” . E esse foi o titulo da nota que botou fogo no noticiário de 17 de maio.

A entrevista de Época é mais uma peça deste jornalismo de joint-venture entre a JBS e a Globo. O dono dos bois brasileiros fala o que bem entende e o repórter só pergunta o que o patrão mandou. Porque nenhum repórter com dois dedos de independência deixaria tantos buracos como os já apontados, por exemplo, por Leandro Fortes em seu blogue.

Mas o atento leitor pode retorquir. Qual nada, Rovai, não foi um repórter, foi o próprio editor responsável da publicação que entrevistou Joesley, o sempre atento Diego Escosteguy, aquele que não dormiu na noite anterior à condução coercitiva de Lula e que ficou postando tweets cifrados anunciando o que estava prestes a acontecer.

Pois, é, amigos. Isso não havia passado despercebido pelo blogueiro. E é mais uma demonstração clara do acordo. O editor-chefe de Época é conhecido pelo seu estilo nada jornalístico. E pela pena alinhada que lhe garantiu subir degraus não só improváveis como impossíveis para um jornalista com o não-talento que detém.

Mas mais impressionante é como a não-entrevista virou blocos no Jornal Nacional. Um massacre semelhante ao que Lula sofreu na véspera de sua delação premiada. Quando a Globo já havia sido avisada pelos vazadores do MP ou pelo juiz de Curitiba que haveria a operação de São Bernardo, para onde, inclusive, mandou seus helicópteros.

Mas por que tanta ódio contra Temer? Por que a Globo quer a cabeça do líder da festa junina do PMDB. Festa junina tem o quê, amigos? Tem bingo? Tem pamonha? Tem quentão? Tem quadrilha…

A Globo quer a cabeça de Temer, mesmo ele tentando fazer todas as reformas, porque o ilegítimo presidente pensou em segurar a Lava Jato. Mas para fazer isso, Temer poderia atrasar o processo contra Lula. E o ex-presidente teria condições de disputar a eleição presidencial de 2018.

Mas tem um outro mas. E se Lula disputasse e a Globo tivesse ficado no barquinho afundado de Temer, ela não teria condições de liderar um movimento por uma candidatura que fizesse frente ao ex-presidente.

E a Globo já está mais do que nunca à procura deste novo Collor. Ela, segundo uma fonte quente dos corredores do Jardim Botânico, estaria fazendo pesquisas qualitativas para encontrar o terno perfeito do candidato pra enfrentar Lula, caso ele consiga disputar em 2018.

Esse molde já estaria se desenhando. E seria alguém com um toque Macron, o novo presidente francês. Mas que teria mais chances de vitória se fosse do Nordeste e não do Sudeste ou Sul do país.

Um jovem líder, com rosto de homem de bem, moderno e conversador ao mesmo tempo, com discurso de pastor, família Doriana e com uma vida de sucesso e superação.

O terno é este. E para que a Globo possa empinar essa pipa ela precisa se lavar do Temer.

Ao mesmo tempo precisa tentar se livrar de Lula de qualquer jeito. Porque mesmo com esse bom moço que está a pescar por aí, ela corre risco de vê-lo derrotado pelo sapo barbudo.

Tudo que a Globo está fazendo com Temer, toda o acordo com Joesley, todo esse jornalismo de joint-venture tem um único nome por trás, Lula. É a ele que a vênus platinada quer derrotar.

E por isso não tem bobagem maior do que esse papo de que a entrevista de Joesley foi feita por encomenda para inocentar o ex-presidente. Joesley não tem como detonar Lula, porque não tem nada contra ele. E mesmo assim a Globo deu um jeito de transformar uma frase solta em uma de suas manchetes.

Não há acordo possível entre Lula e a Globo. A distância que os separa hoje é um Mar Vermelho sem um Moisés que possa abri-lo ao meio.

E por isso quem quiser entender o que vai acontecer em 2018 tem que buscar olhar pra essa guerra entre os dois partidos políticos que restaram no país, Lula e a Globo.

Só um deles vai vencer.
Posted: 18 Jun 2017 09:49 AM PDT
Por Tadeu Porto, no blog Cafezinho:

O ex-presidente Fernando Henrique, depois de incentivar e patrocinar o golpe parlamentar de 2016, agora defende que Temer tenha a grandeza de convocar eleições gerais, ou seja, que seja antecipado o pleito de 2018 para a data mais próxima possível.

É um pouco óbvio demais que FHC quer, simplesmente, tentar apagar a palavra golpista que ele mesmo tatuou na testa (em caixa alta), tentando salvar o pouco de reputação que ele tinha por ter roubado a paternidade do plano real do ex-presidente Itamar Franco.

Mas além disso – essa tentativa vã da liderança tucana querer de alguma forma se livrar da imagem de golpista – a fala de Cardoso tem um detalhe no mínimo curioso, quiçá poético: o gesto de grandeza que ele falou esperar do presidente usurpador Michel Temer é facilmente encontrado na presidenta deposta Dilma Rousseff.

No dia 28 de Agosto de 2016, na véspera da efetivação do golpe, Dilma assumiu perante os senadores e senadoras a postura nobre que, hoje, FHC cobra do traidor Temer. Não só isso, duas semanas antes da sua fala ao senado, Rousseff enviou uma carta intitulada “Mensagem ao Senado e ao Povo Brasileiro” em que assumia publicamente a convocação de um plebiscito para definir a realização de novas eleições.

Ou seja, a primeira presidenta eleita do Brasil não só optou por abrir mão do cargo de poder que detinha, o maior do país, como também ia deixar a escolha de se antecipar a eleição ou não para o povo brasileiro (os coxinhas que pensam que eleição direta é Golpe, incrivelmente iriam poder votar contra isso).

Sendo assim, para sair do discurso retórico e sinalizar que, efetivamente, pensa no futuro do Brasil, FHC deve seríssimos pedidos de desculpas a Dilma. Se ele tivesse a escutado naquele fatídico mês de agosto de 2016, já teríamos começado a enfrentar esse problema de representatividade pela raiz e aberto o caminho para a estabilidade política, pilar essencial para a tão desejada estabilidade econômica.

Claro, essa grandeza é difícil de se esperar de um ex-presidente com a moral de FHC. E é bom mesmo que ele não se desculpe pois, na atual situação – vivendo as consequências de uma trágica ruptura institucional – as eleições gerais devem ser conquistadas pelo povo na rua e não por alguma articulação que tenha como ator figuras como o tucano.

E que o Fernando Henrique Cardoso passe pela história como o golpista e entreguista que é. Que no futuro, possamos apagar seu nome de escolas, pontes e avenidas, como fazemos com as figuras do Golpe de 1964.
Posted: 18 Jun 2017 07:07 AM PDT
Por Paulo Henrique Amorim, no blog Conversa Afiada:

A entrevista de Joesley Batista à revista da Globo Overseas Investment BV, a Época - ler "The end..." - faz parte da trama para acelerar a eleição indireta, na qual a Globo tentará eleger um funcionário da sua irrestrita confiança: FHC Brasif, que já disse que tem orgulho da Globo e do Brasil, nessa ordem, ou um do tal neolibelismo.

(Aparentemente, o Meireles, o vendedor de seguros, segundo o Delfim, está fora do jogo, tal seu vínculo ao banco Original, do grupo do Joesley, e que ninguém sabe direito de que vive...)

Essa é a primeira consequência da deposição do Temer numa revista da Globo.

(Que ironia, gatinho angorá! A Globo te levar o cofre!)

A segunda é a desmoralização irrecuperável desse suposto juiz que não pode julgar, porque é parcial, o Ministro Gilmar Mendes.

O processo de impeachment, movido por Claudio Fontelles, um dos procuradores que querem botá-lo na cadeia, se acelera e se torna irreversível.

Aquela conversinha em que o "Gilmar" cumpre ordens do gângster do Mineirinho para dar uma palavrinha ao senador Flexa incrimina tanto quanto as delações do Joesley.

Não há mal que sempre dure.

Os gângsters do Golpe dos canalhas, canalhas, canalhas vão embora.

E seus "juízes" também!

Em tempo: só falta aquela Ilustre colonista da Fel-lha entrevistar o Temer sobre a entrevista do Joesley e perguntar... "presidente, o senhor é o chefe da maior quadrilha, mesmo?"...

Em tempo2: o que dirá o dos múltiplos chapéus na colona de amanhã no Globo?

Em tempo3: a Cegonhológa se escondeu atrás de um banco da Avianca e nas memórias (publicáveis) do Moreno para não se curvar, imediatamente, aos patrões: quando ela - como o Ataulpho, obediente, já fez - vai jogar o Temer na cloaca? Tchan, tchan, tchan!
Posted: 18 Jun 2017 07:00 AM PDT
Da revista CartaCapital:

Michel Temer negou em nota e vídeo ter mandado a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) espionar o juiz Edson Fachin, condutor da investigação criminal contra o peemedebista no Supremo Tribunal Federal. A presidente do STF, Cármem Lúcia, deu-se por satisfeita após a fúria inicial. “Não há o que questionar quanto à palavra do presidente”, disse. Será que não foi crédula demais, quem sabe por nutrir, como diz gente perto dela, certa simpatia por Temer?

Há motivos para suspeitar que pode ser verdadeira a informação dada pela revista Veja. Um deputado fiel a Temer fez comentários incríveis no Congresso logo após a notícia. O general ao qual a Abin está subordinada é do núcleo duro do governo. O presidente adotou uma postura de “guerra total” contra seus algozes no escândalo JBS-Friboi. A palavra do peemedebista anda com déficit de credibilidade.

Na segunda-feira, 12, primeiro dia útil após a notícia, Carlos Marun (PMDB-MS), um dos vice-líderes de Temer na Câmara e presença constante no gabinete presidencial de uns tempos para cá, dizia pelos corredores: “O presidente não usou a Abin. Mas, e se tivesse usado, qual o problema?” Segundo Marun, a Lei da Abin (a 9883, de 1999) autorizaria a espionagem.

Por que ter à mão o respaldo jurídico de algo que não aconteceu?

Entre as funções da Abin, diz a lei, está “avaliar as ameaças, internas e externas, à ordem constitucional”. Seria este o respaldo jurídico à espionagem, de acordo com Marun. “O juiz Fachin é uma ameaça à ordem constitucional?”, CartaCapital quis saber dele. “Poderia ser”, respondeu o deputado, se ele estivesse sendo pressionado pelo procurador-geral, Rodrigo Janot.

A ideia de que Janot está por trás de alguma violação da ordem constitucional tem sido ventilada pelo Palácio do Planalto em sua guerra total contra as investigações sobre Temer. Ao empossar o atual ministro da Justiça em 31 de maio, o presidente discursou, sem citar nomes, que Janot pratica “abuso de autoridade” e que o País “vive momentos conflito institucional”, pois não se cumpre a “ordem institucional”.

A Abin está sob a guarda do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), comandado por um general que se tornou um dos principais conselheiros presidenciais. Desde o estouro do escândalo Temer-Friboi, em 17 de maio, até a última quarta-feira, dia 14, Sergio Etchegoyen já esteve nove vezes com Temer no Planalto, quatro delas em reuniões a sós, e duas vezes no Palácio do Jaburu.

Etchegoyen levou para o GSI, como assessores diretos, dois oficiais com larga passagem pelo Centro de Inteligência do Exército (CIE). Um deles é o general Joaquim Maia Brandão Júnior, seu conterrâneo gaúcho.

O chefe do GSI foi um dos defensores de que Temer recorresse às baionetas contra um protesto pela derrubada do presidente em 24 de maio, exemplo concreto de emprego do aparato estatal contra cidadãos. Na nota e no vídeo em que nega a espionagem de Fachin pela Abin, Temer dizia que o governo não usa a máquina pública contra brasileiros.

“A nossa filosofia é ‘a melhor defesa é o ataque’”, diz um oficial de alta patente que já trabalhou com Etchegoyen, convicto de que o general do GSI é um dos responsáveis por Temer ter adotado uma postura belicosa na luta por sobreviver ao escândalo Friboi.

O decreto presidencial que botou o Exército para patrulhar Brasília logo após os protestos de 24 de maio, comenta esse oficial, não preenchia a íntegra dos requisitos operacionais. O governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, do PSB, tinha perdido o controle da situação, mas ainda dispunha de instrumentos para usar. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), havia pedido apoio da Força Nacional de Segurança, e por apenas um dia, não por uma semana, como previa o decreto de Temer, revogado um dia depois.

A convocação do Exército, continua esse oficial de alta patente, não foi um ato operacional, mas político, decidido previamente com o objetivo de mostrar a força do governo e sua disposição para ir à guerra. Inclusive, afirma ele, a 3a Brigada de Infantaria Motorizada sediada em Cristalina (GO), a uns 140 km da capital federal, já estava mobilizada em Brasília antes mesmo dos distúrbios.

A palavra presidencial aceita por Cármem Lúcia como “tema encerrado” na suspeita da bisbilhotagem da Abin já deu motivos para ser encarada com desconfiança.

À Folha de S. Paulo de 22 de maio, Temer disse ter recebido seu delator Joesley Batista no Jaburu em 7 de março por achar que o empresário queria falar sobre a Operação Carne Fraca, aquela que desmontou um esquema de propinagem na fiscalização agropecuária. Errado: a Carne Fraca foi às ruas 10 dias depois do papo com Joesley. Confrontado com cronologia dos fatos, o Planalto disse que o presidente “se confundiu”.

Há duas semanas, quando veio à tona a história do jatinho da Friboi usado por Temer para ir com a família à Bahia em janeiro de 2011, o Planalto de início negou: o presidente só voava nas asas de FAB. Confrontada com a informação de que diários de bordo do jatinho listavam a família Temer como passageira, a Presidência se desdisse no dia seguinte e confirmou a carona.

Insatisfeito com as explicações presidenciais, ao contrário de Cármem Lúcia, o deputado Alessandro Molon (Rede-RJ) propôs criar uma CPI da Abin. “A denúncia é gravíssima e revela, mais uma vez, que o presidente Temer está disposto a qualquer medida, mesmo que ilegal, para se proteger da Lava Jato”, disse.

Por enquanto, são poucas as chances de a CPI ser criada. Apesar da enrascada em que está metido, Temer tem conseguido manter uma grande base de apoio no Congresso.
Posted: 18 Jun 2017 06:55 AM PDT
Por Natália Pesciotta, no site da UNE:

Foto: Henrique Silveira

Em um auditório lotado, Ciro Gomes abriu sua fala neste Congresso da UNE com um chamado: “Não vejo como o Brasil pode encontrar seus caminhos fora da rua. E a juventude tem papel indispensável para esquentar as ruas”. Dito isso, o ex-governador do Ceará se concentrou no projeto Brasil Nação que apresentava aos estudantes presentes nesta sexta (16) ao lado dos outros idealizadores, o economista Bresser Pereira e a jornalista Eleonora de Lucena. O projeto pretende oferecer alternativa ao modelo econômico liberal vigente.

Eleonora explicou que, dentro da atual conjuntura, é preciso “desmontar o desmonte” que vem acontecendo às políticas e direitos, mas que é também necessário ter um projeto econômico e social para colocar no lugar: “Estamos acostumados a discutir políticas para estudantes, para indígenas, para engenharia, mas falta discussão que construa um guarda-chuva para tudo isso”.
Cinco pontos

Focado em medidas para a economia, o plano tem cinco pontos, baseados em teses chamadas “desenvolvimentistas”. Bresser Pereira, ex-ministro de Sarney e de Fernando Henrique Cardoso e hoje bastante crítico ao PSDB, explicou as ações, como adoção de uma taxa de câmbio competitiva, a recuperação de investimentos e uma taxa de juros mais baixa.

“Os juros de hoje favorecem a elite rentista, é a captura do patrimônio público através de juros altos”, disse. Outro ponto é a adoção de taxa tributária progressiva: “Só assim se distribui renda. O Brasil é único país onde tributos são regressivos”.

Na defesa das ideias, Ciro foi ainda mais direto. Para ele, o programa financeiro nacional, ao sustentar altas taxas de juros, “transfere renda de quem trabalha e produz para barões que controlam o Brasil”. O centro do poder atualmente são os rentistas que ganham com juros altos.

Ele usou o recorte histórico entre 1930 e 1980 para indicar um exemplo de crescimento robusto e fez uma crítica ao desenvolvimento, segundo ele insustentável, baseado apenas em aumento do consumo. Segundo Ciro, é preciso incentivar a indústria. “Depois da alta do consumo, que não se sustenta, o Brasil quebra. Aconteceu no governo Fernando Henrique, com o fim da inflação, e aconteceu no fim do governo Dilma. Não podemos repetir o mesmo filme” , defendeu
Posted: 18 Jun 2017 06:47 AM PDT
Por Reginaldo Moraes, no site Brasil Debate:

Os resultados das recentes eleições parlamentares no Reino Unido contrariaram todas as pesquisas de opinião e a maior parte dos analistas. Apressados em celebrar a morte dos trabalhistas e, mais generalizadamente, das políticas reformistas, essas vozes da razão de repente foram contraditadas por mais uma patada da massa ignara, aquela que resiste à modernidade e vota “contra seus interesses”.

Não é a primeira vez que algo semelhante acontece. Em junho de 2016, realizou-se no Reino Unido um plebiscito para decidir se a Grã-Bretanha permanecia na União Europeia. Venceu a opção do Brexit – o “Br” de “britain” e o “exit”, de “saída”. Um total de 52% dos votantes escolheu esse caminho. A permanência (remain) fora defendida pelo Partido Trabalhista (Labour) e também pela liderança do Partido Conservador, que chefiava o governo.

A saída (exit) era defendida pela ultradireita e por alguns grupos à esquerda, os euro céticos. Ainda mais chocante parece ter sido o corte entre os eleitores. Tradicionais redutos trabalhistas votaram na tese defendida pela ultradireita. Esse aspecto do resultado torna-se mais relevante quando o comparamos com o que ocorreu em duas outras votações – as eleições presidenciais nos Estados Unidos e na França. Ou quando vemos o ressurgimento de agrupamentos de ultradireita na Europa central e na Itália.

A partir desses casos, uma espécie de lenda urbana tem aparecido com frequência na mídia e mesmo em textos acadêmicos. Diz essa estória que, nas últimas décadas, a classe trabalhadora estaria se movendo para a direita, isto é, abandonando seus tradicionais alinhamentos com sindicatos e partidos de esquerda e votando em programas de direita, até mesmo de ultradireita. Com todas as evidências de alguma verdade, o argumento parece, pelo menos, um tanto exagerado. Em vários sentidos. Primeiro: não é certo que a classe trabalhadora tivesse feito opção tão definida e massiva pela esquerda, em um idealizado momento anterior. O passado não era tão massivamente vermelho. Segundo: também não é certo que ela tenha feito a segunda escolha (ir para a direita) de modo claro e massivo. Mais seguro parece dizer que, na maioria dos casos nacionais que conhecemos, houve, sim, uma inclinação claramente maior pelo “alheiamento” (abstenção + voto nulo ou branco). E, dentre aqueles trabalhadores que seguiram votando, aí, sim, alguma inclinação para a direita, embora menor do que se costuma alardear.

Agora, no novo pleito, pesquisas e analistas davam como certa uma vantagem folgada para os conservadores, sobre os trabalhistas (20%). Na véspera e na boca de urna admitiam uma diferença menor (8%). Nos resultados apurados, a diferença é de meros 2,4%. O líder trabalhista, Jeremy Corbin, foi tratado como um esquerdista defasado, fora do tempo, incapaz de compreender a “modernização” da sociedade britânica. Em resposta, ele dizia: a esquerda cresce quando defende o seu programa, não quando o esquece, renega ou trai.

Alguns dos analistas depressivos do Brexit repetiram algo que também se ouvia entre socialistas franceses e democratas americanos: lamentavam que a classe trabalhadora tivesse votado “contra seus interesses”, apoiando plataformas claramente reacionárias. O que se esquece, nessa lenda confortável, é que as vozes que diziam representar os “interesses dos trabalhadores” propunham e executavam políticas que dilapidavam tais interesses.

O Labour inglês, o Partido Democrata americano, o PS francês, todos queriam aparecer como herdeiros “por definição “ do voto dos trabalhadores, ao mesmo que tempo que renunciavam à herança ideológica, tida como antiquada. Trump, Le Pen e o UKIP (os ultraconservadores britânicos, um simulacro de partido) de fato dirigiram a esse segmento eleitoral um apelo a seus interesses. Os trabalhadores foram enganados? É possível, pois não? Mas… teriam votado “conforme seus interesses” elegendo alguém como Blair, Benoit Hamon, Hillary?

No apagar do século XX, Tony Blair, o politico que personificou a “modernização” do Labour, dando-lhe uma cara mais “classe media”, disse, sentencioso que “a Guerra de classes acabou”. Não era uma constatação, era uma declaração unilateral de cessar-fogo. Do outro lado, o megaempresário americano Warren Buffett foi mais realista: existe, sim, luta de classes, e a minha está ganhando.

Se o Labor abandonava assim seus “filhos”, a orfandade não iria durar. No referendo do Brexit, os abandonados adotaram pais provisórios. Apenas para uma pequena viagem, ao que parece – o ultraconservador UKIP, paladino do Brexit, praticamente desapareceu nestas eleições. Seu líder pediu para sair.

De fato, a atitude mais frequente e mais durável não foi uma clara viragem para direita: cada vez mais, a classe trabalhadora escolhe não votar. E só é deslocada dessa indiferença se desponta algo de urgente e que valha a pena. Agora aconteceu algo parecido. Primeiro, um Labour com outra cara, a de Corbin. Segundo, um partido conservador que deu vários tiros no próprio pé, com propostas “modernizantes” danosas para os debaixo, para variar. A abstenção foi a menor dos últimos 20 anos – e, ao que tudo indica, os trabalhadores não saíram de casa para votar na direita, pelo contrário.

Em 2011, registrou-se um aumento extraordinário da abstenção, em nível nunca antes visto. Em termos absolutos, milhões de trabalhadores, antes fiéis ao Labour, resolveram ficar em casa ao invés de votar. Por quê? Em algumas pesquisas qualitativas reportadas na mídia, trabalhadores respondiam: “não há muita diferença entre o Labour e os Conservadores”. Manifestava-se assim aquele que talvez seja o partido majoritário nas classes populares, o “Tanto Faz”.

Um outro aspecto do descontentamento também era vinculado a políticas do Labour: a imigração. Blair e sua equipe não viam nenhum problema ou conflito na política de ajudar os bombardeios americanos em diversos países e, por outro lado, receber e promover a vinda de imigrantes desses países. Ou a dilapidar a economia desses países, produzindo miséria a céu aberto.Como os democratas nos Estados Unidos, os trabalhistas ingleses dizimavam famílias mundo afora e afagavam seus parentes na Inglaterra, muitas vezes contratando-os como serviçais. Olhando para cenário similar nos EUA, o reacionário Trump captou bem esse cinismo: democratas como Hilary querem os latinos como curral eleitoral e como empregados baratos.

Há pouco tempo, confrontando esses dois casos – o americano e o inglês- Justin Gest publicou instigante estudo- The New Minority: White Working Class Politics in an Age of Immigration and Inequality (Oxford University Press, 2016). Depois de analisar as duas situações, o autor pergunta: Como falar para esse enorme contingente de trabalhadores deslocados e desiludidos pelo deslocamento das indústrias, a devastação das cidades, a degradação dos serviços públicos? Adianta algumas possibilidades ou “recomendações” para aqueles que querem disputar esses trabalhadores e reduzir a influência conservadora:

1. Apresentem candidatos fora das elites, candidatos extraídos do meio popular.

2. Empreguem narrativas da classe trabalhadora, com sua linguagem, seu estilo e seu ponto de vista.

3. Não confundam classe trabalhadora com os indefesos ou derrotados. Trabalhadores querem ser vistos como independentes, autossuficientes, batalhadores.

4. Não partam da ideia de que sindicatos são sinônimo de classe trabalhadora. Os tempos mudaram, a maior parte dos trabalhadores não é sindicalizada e por vezes nem sindicalizável.

5. Desafiem a visão da nostalgia confrontando-a com a visão da esperança.

Aparentemente, algo desse tipo aconteceu com o Labour de Jeremy Corbin. Conseguirá manter esse rumo? A Inglaterra está mais próxima de um partido conservador no governo “por falta de opção”, como na Espanha? Ou surgirá alguma “geringonça” como a de Portugal, em que as diferentes esquerdas conseguiram costurar um acordo mínimo de superação das políticas de austeridade?
Posted: 18 Jun 2017 06:39 AM PDT
Por Luiz Carlos Azenha, no blog Viomundo:

Durante minhas quase duas décadas trabalhando como correspondente nos Estados Unidos, em Nova York e Washington, li várias reportagens nos diários locais - New York Times e Wall Street Journal, especialmente - que poderiam ser entendidas como lobby de corporações norte-americanas para abrir mercados no Exterior.

Eram textos que pareciam destinados à leitura de embaixadores e das elites de potências estrangeiras. Japão, China e, mais recentemente, a Índia foram os principais alvos. Grandes mercados.

No caso da China os jornalistas americanos se especializaram em denunciar violação aos direitos humanos e sindicais dos trabalhadores chineses.

Quando o Wall Street Journal publica algo em defesa de direitos trabalhistas, é preciso desconfiar. Objetivo encoberto: arrancar concessões de autoridades chinesas.

Só no Brasil a atuação de um governo em defesa de empresas nacionais é criminalizada.

Em Washington o governo serve de correia de transmissão para os interesses das megacorporações, como se viu recentemente com a venda de caças norte-americanos para dois Estados que se enfrentam no Oriente Médio, Arábia Saudita e Qatar. Às favas com a diplomacia, o que interessa é vender.

Isso vale para republicanos e democratas. Quando Bill Clinton indicou Ron Brown para secretário de Comércio, foi com a tarefa pública de usar a diplomacia dos Estados Unidos para abrir mercados, mais ou menos o que fez o ex-chanceler Celso Amorim nos governos Lula.

No caso da China os americanos aprenderam com Nixon. É muito mais eficaz trabalhar nos bastidores. Além disso, é preciso equilibrar o interesse das corporações que pretendem vender na China com os interesses do imenso capital norte-americano investido em parcerias com empresas locais.

No caso de aliados como o Japão, as denúncias midiáticas são bem mais eficazes. Eu me lembro especificamente de uma: quando as grandes lojas de varejo dos Estados Unidos pretendiam se estabelecer no mercado japonês - uma delas a maior empresa de varejo do mundo, o Walmart - a mídia norte-americana denunciou vantagens concedidas pelo governo japonês, em todas as esferas, aos mini-mercados que existem às centenas de milhares, espalhados pelas cidades japonesas, pequenas empresas familiares que são a base do comércio.

Todo este preâmbulo é para dizer que mercados contam e que o mercado brasileiro vale muito, especialmente se usado por empresas brasileiras para um salto latino-americano e, em seguida, mundial. Como diria qualquer capitalista, num mundo globalizado a vantagem geográfica e de escala conta muito.

Essa dimensão estratégica é completamente desconhecida pela Operação Lava Jato nas investigações de setores-chave da economia brasileira: da Petrobras às empreiteiras, do BNDES à JBS.

Foi o que abriu espaço para especulações em torno da íntima relação entre os meritocratas da PGR, do MPF, da PF e da Justiça e autoridades dos Estados Unidos, que podem influir no rumo das investigações pelo fornecimento ou supressão de dados na troca de informações prevista em acordos internacionais.

Seria demais esperar que, em sua entrevista à revista Época, dos irmãos Marinho, Joesley Batista fizesse uma reflexão aprofundada sobre o fato de que a corrupção é inerente ao capitalismo: o Estado existe para garantir que alguns se darão melhor que outros, justamente aqueles que podem comprar o poder.

Não é assim nos tão amados Estados Unidos do juiz Sérgio Moro?

Sim, tanto que a Suprema Corte norte-americana, para efeito de doações eleitorais, decidiu dar o equivalente a status de pessoa física às corporações, permitindo que elas interfiram praticamente sem limites no processo eleitoral e moldem a legislação em todas as esferas de governo - sempre à base de dinheiro.

Se malas de dólares não circulam entre empresários e políticos dos Estados Unidos com a frequência que vemos no Brasil, isso não significa que as empresas americanas não comprem legislação. Elas o fazem da mesma forma que a JBS, através de lobistas devidamente registrados em Washington que atuam junto aos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.

Legiões de advogados e associações empresariais escrevem legislação e a submetem através daqueles que financiam. Isso é corriqueiro e frequentemente se torna público.

Um dos casos mais recentes foi revelado pelo documentário Emenda 13, da Netflix, que demonstrou como o complexo industrial-penitenciário comprou legislação para expandir a rede de prisões privadas que explora a mão-de-obra escrava dos dias de hoje, 60% dela negra.

Trata-se de uma ação muito menos descarada que a do gângster Eduardo Cunha, mas não menos perversa.

Na entrevista à Época, o pilantra Joesley Batista se diz surpreso com a dimensão das organizações criminosas que tomaram conta da política brasileira, sem ser forçado a reconhecer que, como subornador, ele também fez crescer seus negócios nos moldes de uma clássica organização criminosa.

Faltou perguntar a Joesley, por exemplo, como se deu a expansão da JBS e da J&F fora do Brasil.

Ele subornou alguém? Ofereceu alguma vantagem? Contratou algum lobista? Tentou interferir de alguma maneira no processo legislativo? Ele não considera que sua expansão internacional, feita com capital acumulado no Brasil, a juros subsidiados, está contaminada pelos vícios de origem?

Joesley teve a oportunidade de expor seu “altruísmo”, afirmando que buscava criar empregos e, assim, beneficiar as comunidades nas quais trabalha. Sendo assim, os políticos que atenderam suas demandas não poderiam usar o mesmo argumento e ter direito à mesma leniência?

Santa hipocrisia!

Mas, por que Joesley não foi encostado contra a parede durante a entrevista?

Podemos testar a hipótese: é um grande anunciante das Organizações Globo, além de aliado de ocasião.

Diego Escosteguy, autor da entrevista, é conhecido pelo antipetismo e se esmera em agradar ao patrão.

A entrevista de Joesley se encaixa no plano dos irmãos Marinho de derrubar Temer para promover um eleição indireta no Congresso.

O empresário, assim, é mero instrumento da disputa institucional entre PGR-Globo e o acordão antecipado por Romero Jucá, “com STF, com tudo”.

Paulo Nogueira, que trabalhou tanto na Abril quanto na Globo — agora está no Diário do Centro do Mundo - conhece Escosteguy bem, e escreveu sobre ele depois de ler manifestações do jornalista no twitter:

Escosteguy parece não ter ideia, ou finge, de que a Globo foi inteiramente construída com dinheiro público, em troca de conhecidos favores sobretudo aos generais que mataram, torturaram e perseguiram tantos brasileiros.

Escosteguy não sabe que sua empresa ainda hoje se beneficia de uma inacreditável reserva de mercado, coisa de quem quer capitalismo e concorrência só para os outros.

Saberá da sonegação da Copa de 2002? Do detalhe da trapaça fiscal feita pela Globo: alegou que ia fazer um investimento no exterior para não pagar o imposto devido pela compra dos direitos? Da tentativa de dar fim, por uma ex-funcionária da Receita, ao documento que comprovava a fraude dos Marinhos?

A Época mesma em que ele é vice-chefe com ares napoleônicos agora.

Quando eu cheguei à Editora Globo, o pobre contribuinte do Amazonas era instado a melhorar as contas da editora mediante compras milionárias de livros da Globo.

Dinheiro público, sempre dinheiro público.

Em troca, o governador recebia matérias louvatórias da Época.

Meu primeiro choque na Globo, e na Época, se deu exatamente aí. Briguei com o “operador” que fazia a ponte entre a editora e o governo do Amazonas.

O governador do Amazonas foi a São Paulo me intimidar. Tivemos um encontro patético, ao fim do qual ele me ameaçou: “Vou falar com o João Roberto Marinho.”

Escosteguy terá noção de como foi feito o Projac? Com dinheiro do Banerj, sempre público, e pago depois, pausa para gargalhadas, com anúncios.

E vem posar de Catão, este Kim Kataguiri do jornalismo, como se trabalhasse na Santa Casa de Misericórdia? Tem coragem de falar em “sites financiados pelo PT” - sem prova nenhuma, aliás - quando a empresa em que trabalha leva só das estatais federais 500 milhões de reais por ano com audiências despencando?


Vivemos no Brasil uma guerra intestina entre facções que ativamente promoveram ou se omitiram diante de um golpe de Estado que afastou a presidente legítima sem crime de responsabilidade, usando pedaladas fiscais de forma obscena. Um golpe que, conforme antecipamos, se tornaria uma verdadeira Galeria dos Hipócritas.

Um golpe contra a Constituição de 1988, contra os direitos trabalhistas, contra a soberania nacional e pela completa submissão do Brasil à globalização financeirizada.

A única saída é o STF anular o impeachment, Dilma Rousseff reassumir o Planalto e organizar eleições gerais antecipadas que restaurem a soberania popular.
Posted: 17 Jun 2017 08:35 PM PDT
Por Altamiro Borges

O covil golpista de Michel Temer faz água por todos os lados. A economia afunda, as denúncias de corrupção emergem e os ratos já abandonam o navio à deriva. Até FHC, o gagá, agora prega a renúncia do Judas. Neste cenário devastador, que pode encurtar o seu mandato ilegítimo, os mais espertos pedem para sair. Nesta sexta-feira (16), o ministro João Batista de Andrade pediu demissão do cargo. Em carta enviada ao golpista, ele informou, de forma lacônica, “o meu desinteresse em ser efetivado como Ministro de Estado da Cultura, posto que venho exercendo interinamente, e por determinação legal do regimento interino, por ser o atual Secretário-Executivo do Ministério da Cultura”. Nada mais explicou.

João Batista de Andrade, que é filiado ao PPS, substituiu o sinistro Roberto Freire, chefão da sigla, no ministério em crise. Em entrevista à Folha, ele acrescentou que seu pedido de demissão decorreu do esvaziamento da pasta, que sofreu um corte de 43% no orçamento. "Era um ministério que já estava deficiente. O Fundo Nacional de Cultura, que já teve R$ 500 milhões na época áurea, hoje tem zero de recurso. É um ministério inviável tratado de forma a inviabilizá-lo ainda mais”, explicou. Ele também alegou divergências envolvendo a nomeação do novo presidente da Agência Nacional de Cinema (Ancine), já que teria sido atropelado por indicações feitas pelo próprio Palácio do Planalto e pelo presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia (DEM).

Para o lugar de João Batista de Andrade, o covil golpista chegou a cogitar o nome da senadora Marta Suplicy, mas ela recusou o convite – o que confirma que a situação da quadrilha no poder é cada vez mais desesperadora. Segundo relato da jornalista Mônica Bergamo, a ex-petista que migrou para o PMDB recusou a oferta feita diretamente por Michel Temer. “O convite foi feito há algumas semanas, antes do pedido de demissão do ministro interino João Batista Andrade. O governo já não tinha a intenção de efetivá-lo por causa do desgaste envolvendo a nomeação da presidência da Ancine”. Marta Suplicy, que já sofreu os efeitos do seu oportunismo nas eleições para prefeitura de São Paulo (ficou em quarto lugar) preferiu se preservar. Afinal, Michel Temer está afundando – corre até o risco de ir para cadeia. É melhor manter distância da praga!

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Posted: 17 Jun 2017 02:20 PM PDT
Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

A visão convencional recomenda que um chefe de governo em dificuldades internas assuma uma postura cautelosa nas relações internacionais, num esforço prudente para evitar dificuldades suplementares.

Nos Estados Unidos, endereço da única potência mundial ao final da Guerra Fria, a situação é diferente. Ao longo da história, a política externa de Washington tornou-se um conhecido terreno para governos em dificuldade tomar iniciativas de caráter imperial, criando áreas de tensão e instabilidade no planeta, numa tentativa de compensar tragédias domésticas com supostas vitorias fora de casa.

Ao anunciar a intenção de rever o programa de reaproximação com Cuba negociado entre Barack Obama e o governo de Raul Castro, Donald Trump dá um passo diplomático regressivo e retoma uma cartilha intervencionista que deixou uma herança de desastres e tragédias.

No início da década de 1970, já a caminho do cadafalso do Watergate, Richard Nixon reforçou bombardeios criminosos na guerra do Vietnã, atingindo populações civis em larga escala.

Em setembro de 1973, onze meses antes de ser forçado a renunciar em função de provas que já haviam chegado a Suprema Corte, envolveu o governo norte-americano numa das grandes tragédias da América Latina. O sangrento golpe que derrubou Salvador Allende, presidente constitucional do Chile, substituído por Augusto Pinochet, que exibiu uma crueldade única a frente de uma ditadura que prolongou-se por 16 longos anos - sempre protegida por Washington.

Três décadas depois, ocorreu uma catástrofe semelhante. George W Bush, que acabaria deixando a Casa Branca como o pior presidente dos Estados Unidos desde a independência, em 1776, inventou o Eixo do Mal, um grupo de países formado por Cuba, Irá e Venezuela, que deveriam ser combatidos em toda linha. Ele tentou salvar um governo claudicante, que logo no início do mandato colocou a economia em recessão após oito anos de crescimento sob Bill Clinton. Com o pretexto de dar uma resposta ao ataque de 11 de setembro, organizou a invasão do Afeganistão. A partir de provas forjadas de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, promoveu uma guerra de 4 trilhões de dólares no Iraque e centenas de milhares de vidas. Assegurou o controle das reservas de petróleo na região e abriu caminho uma crise econômica que se prolonga por um década.

Depois de conquistar, no Colégio Eleitoral, um mandato que as urnas lhe negaram, dando uma vantagem superior a 2,5 milhões de voto para Hillary Clinton, Trump completará o sexto mês de mandato com uma coleção de dificuldades que muitos antecessores não acumularam durante um governo inteiro.

Sua gestão transmite uma sensação de desgoverno permanente, situação que tende a se agravar nas próximas semanas, em função de investigações do FBI sobre as relações promíscuas da Casa Branca com o governo de Vladimir Putin. Há pelo menos um mês a popularidade de Trump tornou-se negativa - 56% dos eleitores reprovam o governo, enquanto 38% o aprovam, diz um levantamento Reuters/Ipsos. Mesmo entre eleitores republicanos, em teoria mais fiéis, o apoio emagreceu 16%. Com gestos desconexos que constroem um ambiente de insegurança e conflitos permanentes, mesmo com aliados tradicionais da União Europeia, a começar pela Alemanha de Ângela Merkel, Trump tentará ganhar algum fôlego com a surrada bandeira do anti comunismo dos anos da Guerra Fria, encerrada oficialmente em 1989, com a queda do Muro de Berlim.

Não se sabe o resultado prático de uma iniciativa anacrônica e irracional, que até contraria os interesses de grandes empresas norte-americanas que deram sustentação a reaproximação com Cuba. O balanço das relações entre os dois países nos últimos 50 anos é traumático. Ao transformar a derrota do regime de Fidel Castro na sua grande prioridade para o continente, Washington submeteu a população cubana aos sacrifícios absurdos de um embargo comercial injusto e perverteu suas relações diplomáticas em toda região. O governo dos EUA não só pressionava países vizinhos a romper relações com Cuba mas garantiu patrocínio a sucessivos golpes de Estado contra aqueles que não se submetiam, como João Goulart, deposto pelo golpe de 64. Mesmo criando dificuldades, os Estados Unidos não foram capazes de levar Havana a uma rendição.

Na segunda década do século XXI, período histórico marcado pela existência de uma superpotência militar única, a consequência geopolítica da iniciativa de Trump é enfraquecer o triângulo formado por Cuba-Venezuela-Equador, que sobrevive a tempestade conservadora que chegou a região.

Ao colocar um pé em Cuba, Trump retoma uma lamentável postura colonial, gesto que é garantia de novos conflitos com países da região, onde mesmo governos que não se preocupam em dissimular uma postura de submissão a Washington reconhecem os riscos do entreguismo em escala absoluta.
Posted: 17 Jun 2017 02:06 PM PDT
Por Leandro Fortes

A Globo capturou as manifestações de 2013 e as colocou em sua grade de programação – com agendas e transmissões ao vivo – para fazer daquelas “jornadas” o primeiro movimento manipulado de massas com vistas a tirar o PT do poder.

Deu no que deu: em três anos, ajudou a colocar essa quadrilha chefiada por Michel Temer no Palácio do Planalto. Exatamente como fez, em 1989, quando usou seu poder de monopólio para colocar, no mesmo lugar, outra quadrilha, a de Fernando Collor de Mello.

Agora, como no caso de Collor, anuncia um desembarque triunfante, entregando Temer aos leões, mas com o cuidado recorrente de se tornar dona do processo para que, como de costume, as coisas possam mudar de tal forma que permaneçam da mesma forma que estão.

Essa entrevista de Joesley Batista à revista Época, como tudo que vem do esgoto global, tem que ser observada com muito cuidado, justamente porque nada, ali, acontece por acaso.

Não tenho a intenção de ler as 12 páginas que anunciam ser o depoimento de Joesley Batista, da JBS, à revista impressa. Nem com um vidro de Milanta Plus eu me disponho a uma coisa dessa. Por isso, me atenho ao que foi disponibilizado na internet, o que, imagino, seja o de mais importante da entrevista.

Assim, é bom prestar atenção na manchete de letras garrafais que chama para a publicação:

“Temer é o chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil”.

Pelo que se depreende da entrevista na internet, essa manchete é fruto de um silogismo pedestre. O que está lá é o seguinte, dito por Joesley:

“O Temer é o chefe da Orcrim da Câmara. Temer, Eduardo, Geddel, Henrique, Padilha e Moreira. É o grupo deles. Quem não está preso está hoje no Planalto. Essa turma é muita perigosa”.

Sacaram?

Logo na chamada introdutória, o texto supervaloriza a entrevista porque esta teria sido fruto de “semanas de intensas negociações”.

Ora, a notícia da delação de Joesley foi publicada em 17 de maio. Há quatro semanas, portanto. Mesmo que Época tivesse entrado em contato com o empresário no minuto seguinte ao furo de O Globo, essa valorização já seria ridícula.

Por isso, algo me diz que as negociações podem até sido intensas, mas longe do conceito tradicional de persuasão jornalística.

Também, lá pelas tantas, Época informa aos leitores que, segundo Joesley, “o PT de Lula ‘institucionalizou’ a corrupção no Brasil”.

Bom, pode ser que nas intermináveis 12 páginas disponíveis nas bancas tenha algo mais sólido, a respeito. Mas o que tem na entrevista disponibilizada, no site da Época, é o seguinte, dito por Joesley:

“O PT mandou dar um dinheiro para os senadores do PMDB. Acho que R$ 35 milhões”.

Ou seja, Joesley Batista tem um problema grave de metodologia, quando se trata de dar propina ao PT. Na delação formal, diz que abriu uma conta na Suíça para Dilma e Lula, mas no nome dele. E só ele tem a senha. Agora, revela que o PT “mandou dar dinheiro” para os senadores do PMDB. E acha (!) que eram R$ 35 milhões (!!).

O repórter, simplesmente, não pergunta quem do PT deu a ordem de dar dinheiro, nem quem eram os senadores do PMDB que o receberam. Nem por curiosidade.

Mais adiante, Joesley revela que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara, pediu R$ 5 milhões para evitar uma CPI contra a JBS. Segundo Cunha, esse era o valor oferecido por uma empresa concorrente de Joesley para a tal CPI ser aberta.

Qual era a concorrente? Nenhuma pergunta a respeito.

Na mesma linha, segundo Joesley, o operador de propinas do PMDB, Lúcio Funaro, fazia a mesma coisa. Colocava-se para barrar requerimentos de CPIs na Câmara, mas o empresário descobriu que era “algum deputado”, a mando de Funaro, que protocolava as ações.

Quem era um desses deputados pagos por Lúcio Funaro? Nenhuma pergunta a respeito.

Além disso, o repórter incrivelmente não se interessou em perguntar a razão de a JBS ter dado R$ 2,1 milhões a Gilmar Mendes, a título de patrocínio de uma faculdade da qual o ministro do STF é sócio.

A não ser que essa pergunta esteja nas tais 12 páginas, estamos diante de um lapso jornalístico bastante curioso.

Então, é o seguinte.

A Globo decidiu capturar, também, o #ForaTemer, depois de ter sido a protagonista do golpe que colocou essa gente no poder. Por isso, mantém Joesley Batista acorrentado a si.

Quer, outra vez, estar à frente do processo de sucessão presidencial para manter seus negócios e interesses intocados. Para isso, precisa de um presidente eleito indiretamente por esse Congresso vil e repugnante resultado, justamente, das tais jornadas de 2013.

Joesley Batista, ao que parece, é o novo Pedro Collor, o irmão-delator que a Veja usou para derrubar o “caçador de marajás” que ela ajudou a criar junto com a Globo – e que foi enterrado pelas duas com a mesma desfaçatez com que pretendem se livrar, agora, de Michel Temer.

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